domingo, 14 de fevereiro de 2016

Coleção Sacramentos

Coleção Sacramentos

1-Batismo

Incrédulo e sem razão,
Eu negava o amor.
Negava sua existência,
Negava sua benemerência,
Negava sua eficiência.
Um pérfido de coração,
Eu só cria mesmo, era na dor.
Essa dor da existência,
Devoradora de consciências,
Mãe e irmã do desepero.
Que leva-nos ao pesadelo,
De nos vender a qualquer preço.
Mas num dia casual,
Veio você afinal,
O meu mundo transformar.
E a dor que eu cultivava,
Mutilando meu coração,
Devorando-me a razão,
E empobrecendo- me a emoção,
Por teu olhar foi vencida,
Dando vida a minha vida.
Me vencendo afinal.
E assim,  tu me sorristes,
Com um olhar me sedusistes,
E por fim, me condusistes,
Ao teu corpo batismal.
E na pira do teu fogo,
Queimastes o velho eu,
Fazendo surgir o novo,
Batizado pelo amor,
Nas águas ferteis do teu gozo.
E sendo o novo ser que sou,
Eu só vivo pra você,
Sou servo do teu amor.


2- Eucaristia

No sagrado templo do amor,
Coloco-me desnudo e contrito,
Reverente e cheio de grande ardor,
Onde banqueteio-me, a cear contigo.

Nos seus olhos vejo o amor fulgurante,
Em seu toque, toda a perfeita sublimidade,
Em seus lábios, a confissão dos amantes,
Em meu eu a fluir a plena felicidade.

Devotado, me deito em seu leito altar,
E me ofereço, em pleno ato de oblação,
Recebendo-te oferenda, na mesma medida.

Comungando nossos corpos, no ato de amar,
Eucaristia dos amantes, numa mesma oração,
Nos tornamos um, a comungar a mesma vida.



3 -Confirmação

No crivo das dores de cada dia,
O tormento das horas nos ronda,
A rotina sequiosa nos cerca,
Os problemas nos abalam e desafiam.

A distância nos quer separar,
Nos mantendo das horas, reféns,
Tantos olhos nos olham, nos buscam,
Tantas vozes, nos gritam, doutrinam.

Mas no oculto templo de minh'alma,
Onde somente eu e o amor adentramos,
No secreto quarto de meu ser,
Onde eu e você, pelo amor, sendo um habitamos.

Nesse quarto, de portas fechadas,
Onde o pai amor, nos ouve e acompanha,
Eu num rito sacrossanto de amor,
Professo silenciosamente em meu coração,
Sobre os descompassos do amar,
Dando à vida minha confirmação,

Como a crisma confirma o batismo,
Confirmando uma escolha e vocação,
Eu confirmo com o jorrar de minh'alma,
Num oceano de amor em convulsão.

Que te amo, te quero e te preciso,
Sois meu amor, meu afeto e paixão,
Sois meu sol e meu eu, em outro eu,
És a vida, que conserva a vida,
Dando luz e vida, ao meu coração.


4 - Matrimônio

Me casei,
Me entreguei e amei.
Procriei,
Recriei a cantar...

E a vida gerou novas vidas,
No selvagem exercicio do amar.
Nos rituais sacramentais da instituição,
Me enredei e me casei,
Fiz papel,
Coloquei em outro dedo aliança.

Mas trai o que um dia jurei,
O matrimônio que então contrai,
Se contraiu no compasso dos dias,
Em pecado de não amar a quem jurei,
Vi-me enredado nas trevas da rebeldia.

Mas o amor que a tudo ordena,
Não se encarcera em vis tradições,
Nem condena o que ama imensamente,
E se entrega, a viver de emoções.

Entre o falso matrimônio jurado,
Falseado pelo arrefecido sentimento,
Optei por seguir meus desejos,
Te encontrando em sublime momento.

E se escândalos muitos causei,
Ao encontrar-te contigo me casei,
Com um olhar descobri-me em ti,
Com um beijo,
Fizemos nosso matrimônio.


5 -Penitência

Confesso que amei...
Confesso que sonhei...
Confesso que acreditei...
Confesso que tentei...
Confesso que servi...
Confesso que li e reli...
Confesso que temi...
Confesso que fugi...
Confesso que senti...
Confesso que não fiz por mal,
Confesso, sou humano afinal,
Confesso que meu instinto animal,
Solapou meu desejo racional,
E fez-me presa desse amor transcendental.

Confesso, sem esse amor nada sou...
Confesso, meus erros e pecados
Confesso, minhas trevas meus medos mais guardados
Confesso...
E ao confessar peço perdão...

Perdão por decepcionar a tantos,
Perdão por amar assim,
Perdão por acreditar no amor e na sua liberdade,
Perdão por não pedir perdão.

Perdão por ter pecado,
Perdão por perder de vista a noção de pecado,
Perdão por ter acreditado,
Que é certo inventar pecados,
E que manter o ser aprisionado seja o único e real pecado.

Perdão por gostar tanto do pecado, com seu amargo adocicado!

Perdão... perdão...
Por ser um ser que sente, sonha, deseja e quer...
Um ser que não se retém por medo ou covardia,
Um ser que teme a própria consciência e foge da hipocrisia.

Perdão por ser um homem injusto e imperfeito,
Em busca de justiça e perfeição,
Perdão por ouvir os apelos do desejo,
E me doar sem medida ou reservas.

Perdão por decepcionar a tantos, para saciar às minhas mais íntimas e essenciais necessidades...

Perdão... perdão por minha sinceridade,
Perdão por minha honestidade para com o outro e principalmente para comigo mesmo.

Perdão pela poesia pobre e vazia,
Perdão por esses meus versos,
Perdão por minha confissão,
Perdão por acreditar e viver o amor...
E por amor confesso...
E por amor perdão peço...
E por amor confesso,
Que por amor, outra vez e mais uma vez...
Se preciso for... pecarei.



6 - Ordem

O amor me ordenou...
Ordenou que eu ame,
Ordenou que eu sinta,
Ordenou que sonhe,
Ordenou que eu deseje,
Ordenou que eu pense,
Ordenou que eu veja,
O amor me ordenou...

Ordenou-me sacerdote do amor.
Ordenou-me para sempre e eternamente.
Sacerdote segundo a ordem de philos, eros e ágape.

O amor me ordenou...
E assim, obedeço,
Assim, cumpro meu sacerdócio,
Às vezes amargo, às vezes doce,
Entre erros e acertos,
Tombos e tropeços,
Lágrimas e sorrisos,
No exercício do amar cumprindo a ordem do amor.

Vou estando como estou, a caminho do que serei...
Nos braços do amor que é,
Vivendo meu inferno e meu paraíso.

No calor do seu toque,
No fulgor dos seus olhos,
No néctar dos seus lábios,
Nas águas do seu amor,
Na doçura inebriante do seu sorriso.


7- Unção

Morro a cada instante,
Morro eterno amante,
Na constante busca,
No prazeroso e extenuante exercício do amar.
Morro a cada gozo,
Morro a cada orgasmo,
Morro enfermo que sou,
Doente nesse corpo de carne que o tempo roi e a dor corroi,
Que a mágoa e o egoismo adoece e destroi.
E por isso morro...

Morro, mas morro amando...
Ainda que chorando,
Ainda que sangrando,
Ainda que errado, morro nos braços do amor, feliz a amar...
E o amor me unge com sua unção,
Doce unção dos enfermos, enfermos de todas as enfermidades.

Pois somente o óleo santo do amor traz vida...
E o amor jorra o seu óleo, pelas lágrimas dos seus olhos,
Pelo brilho do seu sorriso,
Pelas águas do seu corpo,
Esse embevecente e magnífico,
Portal que conduz ao céu,
O templo sagrado do amor,
Que se erige e se instala,
Onde haja dois corações,
Dispostos ao amor, ao amar.

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